Expedição do Cemave busca ave rara no Parna da Chapada Diamantina

Representantes do ICMBio e instituições parceiras promoveram recentemente uma expedição ao Parque Nacional da Chapada Diamantina (BA) com o objetivo de encontrar uma das aves mais raras e ameaçadas do Brasil: o entufado-baiano (Merulaxis stresemanni).

O grupo contou com a participação de Diego Mendes e Antônio Eduardo Barbosa, analistas ambientais do Cemave; Alexander Zaidan, biólogo da Fundação Biodiversitas; Thalison Ribeiro, da Associação de Guias de Mucugê; e Edlande,
auxiliar de campo.

Eduardo Barbosa, Diego Mendes, Thalison Ribeiro, Alexander Zaidan e Edilande Novais (da esquerda para a direita)

O planejamento dessa aventura teve início quando Thalison Ribeiro, guia de observadores de aves da região, avistou um casal nas matas úmidas de encraves de Mata Atlântica, no interior do parque nacional. Na ocasião, ele não dispunha de equipamentos que permitissem documentar o que seria um importante achado.

O PÁSSARO

O Merulaxis stresemanni (entufado-baiano) é uma espécie rara, endêmica e ameaçada de extinção na categoria Criticamente em Perigo, da Mata Atlântica. Ela é considerada uma das aves mais ameaçadas de extinção em toda a região neotropical e uma das menos conhecidas no Brasil.

entufado-baiano (Merulaxis stresemanni). Foto: Cristine Prates

Sua descrição foi feita com base em dois espécimes de museu obtidos no leste da Bahia. O animal só foi observado na natureza muito tempo depois, em 1995, no município de Una. Apesar de diversas buscas nas áreas de ocorrência potencial, o único local onde a espécie foi registrada na última década é a RPPN Mata do Passarinho, que abrange os municípios de Macarani, na Bahia, e Bandeira, em Minas Gerais, onde foram registrados apenas seis indivíduos até 2015.

"Após um grande incêndio no bloco florestal da Mata do Passarinho, em janeiro de 2016, apenas uma única fêmea vem sendo detectada na região, constituindo-se na população global da espécie confirmada atualmente. Diante desse cenário, se documentado, o avistamento da espécie na Chapada Diamantina representa uma esperança para sua sobrevivência", ressaltou Diego Mendes.

PLANEJAMENTO

No planejamento da expedição, após consulta ao mapa da região do Parna, a equipe direcionou-se para o povoado Guiné. No local, iniciou uma longa caminhada passando por serras, montanhas e cachoeiras. "Uma beleza cênica exuberante. Pássaros e plantas eram as principais testemunhas dessa jornada", contam os participantes da expedição.

Mirante do Vale do Pati - Parque Nacional da Chapada Diamantina. Foto: Eduardo Barbosa

Beija-flores se destacavam com suas cores iridescentes e delicadeza em voos precisos e ágeis como o do beija-flor-de-gravata-vermelha (Augastes lumachella), beija-flor-marrom (Colibri delphinae), chifre-de-ouro (Heliactin bilophus) e topetinho-vermelho (Lophornis magnificus). Outra ave ameaçada e com ocorrência exclusiva da Chapada Diamantina, conhecida localmente como gruneiro (Scytalopus diamantinensis), chamou atenção com seu canto de trinados longos
que se ouve à distância. Mais adiante, outra ave ameaçada foi avistada: o chupa-dente-do-nordeste (Conopophaga cearae).

beija-flor-de-gravata-vermelha (Augastes lumachella). Foto: Thalison Ribeiro      beija-flor-marrom (Colibri delphinae). Foto: Thalison Ribeiro

chifre-de-ouro (Heliactin bilophus). Foto: Thalison Ribeirotopetinho-vermelho (Lophornis magnificus). Foto: Diego Mendes

Nesta expedição, a equipe não foi capaz de documentar o entufado-baiano por meio de fotos e de gravação de áudio. Mas, o grupo acredita que há boas chances de a espécie estar lá e será preciso mais esforços para localizá-la na região.

gruneiro (Scytalopus diamantinensis). Foto: Thalison Ribeirochupa-dente-do-nordeste (Conopophaga cearae). Foto: Diego Mendes

"É possível que esse pássaro ainda sobreviva no Parna da Chapada Diamantina. Este acontecimento reforça a necessidade de integração de entidades civis, terceiro setor e poder público da região para aumentar a proteção dos
últimos remanescentes de floresta úmida da chapada. É crucial que haja mais investimento em pesquisa, educação ambiental e normatização do ecoturismo, em especial o turismo de observação de aves", reforçou o analista ambiental
Diego Mendes.

A expedição contou com a parceria da Fundação Biodiversitas e o apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e da American Bird Conservancy.