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Telemetria satelital ajuda no estudo de tartarugas marinhas

Publicado: Segunda, 15 de Julho de 2019, 15h14
Em Sergipe, por exemplo, os estudos tiveram início em 2014.

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Telemetria tem o objetivo de obter informações mais qualificadas. (Foto:Acervo/ICMBio)

A telemetria por satélite é uma técnica que permite o monitoramento remoto do comportamento de animais e possibilita colher informações sobre os deslocamentos realizados e ambientes frequentados por eles. Esta técnica utiliza os transmissores, ou Platform Trasnmiter Terminal (PTT), instalados nos animais, conjuntamente com as diferentes constelações de satélites em órbita, para coleta e transmissão das informações. O método é especialmente útil para o estudo de animais que realizam amplas migrações.

E quando o assunto é ser transfronteiriço e extremamente migratório, as tartarugas marinhas são sempre animais reconhecidos. Com o objetivo de obter informações mais qualificadas, sobre tais deslocamentos, o Centro Tamar, em parceria com outras instituições, a exemplo da Fundação Pró-Tamar e consultorias executoras de programas de monitoramentos da biota, tem adentrado esse campo de pesquisa e produzido relevantes informações sobre as espécies que ocorrem no litoral brasileiro - Chelonia mydas (verde); Caretta caretta (cabeçuda); Lepidochelys olivacea (oliva); Eretmochelys imbricata (de pente) e Dermochelys cariacea (de couro).

Em 2014, a associação dessa técnica de monitoramento a pesquisas sísmicas marinhas, possibilitou a execução de novos estudos, que além de investigarem aspectos da ecologia da espécie estavam também voltados para a avaliação de impactos ambientais. Esses novos estudos compreendem, no litoral de Sergipe, as espécies oliva e cabeçuda, e no Rio Grande do Norte, a tartaruga-de-pente. Os resultados dessas pesquisas são analisados de forma integrada por profissionais das diferentes instituições, com a elaboração conjunta de publicações científicas.

Embora a eficiência da telemetria por satélite na identificação de áreas de uso, rotas migratórias e comportamento de mergulho das espécies seja bem conhecida, com aplicações inclusive na proposição e diagnóstico de unidades de conservação, o uso dessas informações na avaliação de impactos é menos frequente. Nesse sentido, a ideia principal do Tamar foi investigar quais as modificações na disposição e tamanho da área de uso das tartarugas marinhas, nas fases com e sem a pesquisa sísmica, assim como comparar variações no comportamento de mergulho desses animais.

Resultados do monitoramento
O estudo realizado em Sergipe a partir de 2014, com 40 indivíduos de tartaruga-oliva e 6 da tartaruga-cabeçuda já apresentam resultados. O monitoramento do conjunto de animais totalizou aproximadamente 900 dias e durante esse período foi possível registrar o amplo deslocamento das tartarugas-olivas pela plataforma continental do Brasil, com áreas de alimentação identificadas desde a costa de Santa Catarina até o Pará, assim como migrações através do oceano Atlântico, até a porção equatorial do continente Africano, entre o arquipélago de Cabo Verde e a Costa do Marfim. Nessas migrações oceânicas as tartarugas percorreram cerca de 4500 km em aproximadamente 110 dias.

Para as tartarugas-cabeçudas, o estudo mostrou similaridade entre as áreas de uso dos animais marcados em Sergipe e na Bahia, o que ilustra a importância da plataforma continental do Rio Grande do Norte e do Ceará como áreas de alimentação desses animais.

O estudo destacou também que, de modo geral, não houve notável sobreposição entre a área de pesquisa sísmica e os deslocamentos das tartarugas marinhas, exceto por alguns animais com migração oceânica e por uma das áreas de uso identificadas, corroborando a importância das salvaguardas ambientais definidas para as áreas da plataforma continental no licenciamento, uma vez que essa feição concentra grande parte das áreas de uso e rotas migratórias identificadas.

A análise dos mergulhos realizados pelas tartarugas demonstrou também o amplo uso da plataforma continental, principalmente em áreas até os 50 metros de profundidade, com esporádicos mergulhos profundos, até 100 metros. Já nas áreas oceânicas, estes ultrapassaram os 400 metros de profundidade, porém, mantendo o predomínio dos mergulhos mais rasos, até os 50 metros.
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Densidade de sinais transmitidos pelas tartarugas-olivas monitoradas permitem identificar o corredor migratório da espécie ao longo da plataforma continental do Brasil, assim como o amplo deslocamento na porção equatorial do oceano Atlântico.

Os resultados obtidos no estudo iniciado em 2014 são hoje complementados, a patir de um novo monitoramento iniciado em 2018 e que conta com 20 tartarugas-olivas monitoradas. Desse total, 6 transmissores continuam ativos. Os padrões migratórios identificados até o momento nesse novo estudo é similar aos de 2014, no entanto apenas com a conclusão do estudo será possível uma avaliação mais comparativa, inclusive quanto às áreas de uso dos animais em relação à pesquisa sísmica executada.

Resta ainda analisar de forma mais detalhada os comportamentos de mergulhos e a relação dos deslocamentos com variáveis oceanográficas como produtividade, temperatura do mar e correntes.

Túnel do tempo da telemetria
Os primeiros trabalhos com o monitoramento de tartarugas marinhas por satélites foram publicados no início da década de 1980 (1982) e desde então a investigação das áreas de uso e rotas migratórias, que antes era realizada por meio de marcação e recaptura dos animais, ganhou um nível de detalhamento sem precedentes.

Uma revisão da literatura, promovida em 2014 (Jeffers & Godley, 2016), demonstrou o elevado crescimento deste campo de pesquisa que, entre 1982 e 2000, contava com uma publicação anual inferior a 10 artigos e que a partir de 2006 alcançou aproximadamente 30 a 40 publicações por ano. A partir deste período houve um crescimento notável no número de transmissores ativos, que em 2006 totalizava aproximadamente 1.000 tartarugas marinhas rastreadas por ano no mundo.

No Brasil, as pesquisas com telemetria satelital de tartarugas marinhas se iniciaram em 2000 na Base do TAMAR em Almofala/CE, com a instalação de 8 transmissores em Chelonia mydas (tartaruga-verde). Posterirormente, em 2001, 5 tartarugas-cabeçudas foram monitoradas por esse método no Espirito Santo.

Após essas primeiras iniciativas, entre 2005 e 2006, foi conduzido um esforço nacional de monitoramento, com a instalação de 39 transmissores distribuídos entre as espécies que reproduzem no Brasil: Eretmochelys imbricata (15 PTT), Caretta caretta (10 PTT), Lepidochelys olivacea (10 PTT) e Dermochelys coriacea (4 PTT).

Os resultados dessas pesquisas foram divulgados na forma de cinco artigos científicos, publicados em 2003 e entre 2010 e 2012. Dentre os principais resultados dessas investigações se destaca a identificação de áreas de uso no mar durante a estação reprodutiva, rotas migratórias das tartarugas, tanto ao longo da costa do Brasil como no Oceano Atlântico sentido à África, assim como a identificação de áreas de alimentação.

Além de ampliar as informações sobre a ecologia das espécies, esses resultados foram discutidos em relação às ameaças que as tartarugas marinhas encontram ao longo dos deslocamentos e, ainda hoje, são base para avaliações de impacto ambiental e análises de sobreposição espacial com atividades e empreendimentos no mar.

Desde a publicação dos resultados dos estudos de 2006, novas iniciativas de pesquisa com a telemetria satelital de tartarugas marinhas têm surgido no Brasil. Além dos já citados estudos com a tartaruga-oliva e tartaruga-de-pente a partir de 2014, destaca-se o monitoramento de juvenis da tartaruga-cabeçuda no sul do Brasil entre 2006 e 2010, o estudo conduzido no litoral da Bahia com a adultos e juvenis da tartaruga-cabeçuda a partir de 2012 pela Fundação Pró-Tamar, o monitoramento de tartarugas-cabeçudas que desovam no litoral do Rio de Janeiro, iniciado em 2016 em função das obras de instalação do porto do Açu e mais recentemente, uma a nova pesquisa no litoral do Espirito Santo, com o monitoramento de 5 tartarugas-de-couro em 2017, cerca de 12 anos após o primeiro estudo com a espécie no Brasil.
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Primeiros trabalhos com o monitoramento de tartarugas marinhas por satélites foram publicados no início da década de 1980. (Foto:Acervo/ICMBio)

Sísmica e tartarugas marinhas
Em 2013, preocupado com os potenciais impactos de pesquisas sísmicas marinhas ao comportamento das tartarugas marinhas, o Ibama, na época por meio da Coordenação Geral de Petróleo e Gás, consultou o Centro Tamar quanto às técnicas de monitoramento aplicáveis e que pudessem indicar a disposição dos animais em relação às áreas de pesquisa sísmica, assim como, favorecesse avaliações do comportamento dos animais ante os efeitos da pesquisa sísmica.

A pesquisa sísmica utiliza ondas sonoras geradas por explosões controladas de bolhas de ar no meio marinho para identificar formações geológicas capazes de conter reservas de petróleo e gás. Os navios de pesquisa percorrem sistematicamente áreas definidas para exploração e arrastam conjuntos de canhões de ar e sensores que captam o eco das ondas sonoras no fundo marinho.

A maioria das informações disponíveis sobre os impactos da pesquisa sísmica marinha na fauna se refere aos cetáceos e embora as pesquisas sísmicas sejam realizadas em diversos países com ocorrência de tartarugas marinhas, para este grupo há uma notável falta de conhecimento quanto aos efeitos desse método de aquisição de dados.

As reuniões realizadas entre o Centro Tamar e o Ibama permitiram a definição de diretrizes para um estudo capaz de avaliar a localização das áreas de uso das tartarugas marinhas e sua disposição em relação aos limites da área de pesquisa sísmica, assim como a aquisição de informações sobre o comportamento de mergulho dos animais formaria uma base para avaliações futuras.

Os transmissores escolhidos possibilitavam a coleta de dados de localização com maior precisão, similar ao GPS, assim como, eram dotados de sensores que captavam informações como número, profundidade e duração dos mergulhos.

De modo a aprimorar a proposta técnica, reuniões foram realizadas com representantes das empresas de sísmica marinha, assim como com pesquisadores da Fundação Pró-Tamar, visando discutir aspectos como a logística de execução da pesquisa, adequação aos programas de monitoramento de praias já existentes e o cronograma de execução. Definiu-se que o monitoramento das tartarugas marinhas deveria contemplar períodos sem a execução da pesquisa sísmica, assim como a coleta de dados durante a sísmica, de modo a registrar eventual alteração de comportamentos.

Toda a logística e equipamentos necessários para a execução do estudo foi disponibilizada pelas empresas associadas ao cumprimento da condicionante ambiental. Ao Centro Tamar, dado o conhecimento sobre a biologia dos animais, coube a supervisão e orientação do estudo, o que incluiu a definição das especificações e programação dos transmissores, a supervisão da fixação dos transmissores nas tartarugas, assim como a discussão técnica com as equipes, quanto à análise dos dados e variáveis a serem consideradas.

Nessa pesquisa, as atividades de campo para a captura da tartaruga e a segura instalação dos transmissores são etapas vitais, no entanto, a maior parte do trabalho está associada à prévia preparação dos transmissores (configuração e pintura para proteção) e ao acompanhamento dos sinais transmitidos e sua análise, filtragem para exclusão de dados anômalos e interpretação dos resultados.

A tecnologia nesse tipo de monitoramento tem evoluído, e espera-se no futuro que os aparelhos possam funcionar de forma mais eficiente, no que se refere à ciclos de operação mais racionais e que possibilitem uma maior vida útil das baterias, com a coleta de dados sobre o comportamento das espécies por períodos ainda mais longo.
No Brasil, apesar das pesquisas desenvolvidas, são ainda raras as informações sobre os deslocamentos das tartarugas-verdes, assim como para os juvenis, que contam com apenas dois estudos realizado com a tartaruga-cabeçuda no litoral da Bahia e na porção marinha do Rio Grande do Sul. E como todos os animais adultos monitorados no Brasil eram fêmeas, não se dispõe de informações sobre a ecologia espacial dos machos.

Os resultados do monitoramento mostraram-se promissores e são utilizados, também pelas empresas de sísmica envolvidas, para ilustrar como o esforço integrado das diferentes equipes, incluindo pesquisadores, consultores e analistas do Centro Tamar, possibilitou a realização de um trabalho com resultados múltiplos, que integram a identificação precisa de áreas de uso dos animais e a relação dessas com as áreas propostas para a exploração, assim como a aquisição de informações vitais para a compreensão do ciclo de vida dessas espécies ameaçadas.

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) relacionados:
14 Vida na água 15015 Vida terrestre 150


Comunicação ICMBio
(61) 2028 9280



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