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Nosso verde não vai virar cinzas

Publicado: Quarta, 30 de Agosto de 2017, 11h45
O ICMBio acumula experiência no combate a incêndios florestais. O Manejo Integrado do Fogo é uma das estratégias utilizadas. Saiba mais na 8ª matéria da série sobre os 10 anos do Instituto

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Ramilla Rodrigues
ramilla.rodrigues@icmbio.gov.br

Brasília (30/08/2017) – Desde julho, a seca, velha conhecida dos habitantes da região central do País, não dá trégua, reduzindo a umidade e disparando as ocorrências de incêndios florestais. Uma faísca é suficiente para fazer o cerrado arder, causar a morte de centenas de animais consumidos pelas chamas e reduzir a chance de sobrevivência de outros tantos, especialmente filhotes. Órfãos, eles não conseguem se defender de predadores ou se alimentar sem a ajuda da mãe.

Embora tenha apenas 10 anos de fundação, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) acumula experiências no combate a incêndios florestais. A partir de 2010, com a adoção do Manejo Integrado do Fogo (MIF), uma estratégia preventiva, esse trabalho se tornou ainda mais eficaz, diminuindo consideravelmente a ocorrências de tragédias provocadas pelas chamas.

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De lá para cá, segundo dados da Coordenação de Emergências Ambientais (Coem) do Instituto, o total de área queimada em unidades de conservação diminuiu mais de 500 mil hectares, sendo que cerca de 200 mil hectares são provenientes de queimas prescritas e de aceiros, ou seja, ações planejadas e monitoradas pelo ICMBio.

“Historicamente, nas áreas protegidas, o cenário sempre foi de trabalhar com a exclusão de fogo. Na vegetação do cerrado, isso leva ao aumento do acúmulo de combustível, devido à alta produção de capim, acarretando em incêndios de grandes proporções”, explica o coordenador da Coem, Christian Berlinck. Nesta perspectiva, o MIF já é utilizado em locais com o ambiente de savana, semelhante ao cerrado, como Estados Unidos, Austrália e países africanos.

São três pilares essenciais: a ecologia do fogo (como o fogo reage com o ambiente baseado em pesquisa e monitoramento); o uso (quem e por que usa, qual época que necessita ocorrer) e a exclusão do fogo (o combate propriamente dito). “A partir dessas experiências, concluímos que precisávamos melhorar o nosso entendimento sobre fogo, as necessidades de cada área, capacitar os nossos gestores e tomamos a decisão de investir mais em prevenção do que em combate”, explica Berlinck.

Esec Serra Geral

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A área da Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins era permeada pela criação do gado e capim-dourado. “Com criação da unidade, essas práticas diminuíram. O combustível acumulado, antes fragmentado pelo uso de fogo, começou a se concentrar, aumentando a severidade e intensidade dos incêndios nos períodos de seca”, conta o chefe substituto da unidade, Máximo Menezes. A queima tardia, que ocorre no final da seca, é extremamente nociva ao meio ambiente por consumir o máximo de material combustível, liberar mais gases de efeito estufa e dificultar a rebrota da vegetação.

A partir de 2014, com o apoio da Coordenação Geral de Proteção (CGPRO) do ICMBio e do Projeto Cerrado Jalapão, a unidade começou a utilizar novas técnicas para diminuir os impactos causados pelo fogo. “O primeiro passo foi o de fragmentar essas áreas, diminuindo a quantidade de combustível e a frequência de grandes incêndios”, complementa Menezes.

O auxílio da comunidade ao redor da unidade também foi importante. A assinatura de um termo de compromisso foi o passo inicial para acertar ações com a comunidade, facilitando, para os gestores, o monitoramento e controle das utilidades do fogo na área. “O fogo se transformou de conflito a um elo com a comunidade”, resume o chefe da Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins, Marco Borges.

Desde então, a Estação Ecológica vem apresentando quedas expressivas na ocorrência de incêndios severos. Em 2010, os incêndios que atingiam a unidade somaram 304 mil hectares. Em 2016, o número chegou ao patamar de 78 mil hectares, uma redução superior a 25%.

Os grandes incêndios também foram reduzidos. Em 2010, o maior incêndio foi de 80 mil hectares. Nos anos de implementação do Manejo Integrado do Fogo, o maior incêndio foi de 31,7 mil hectares, em 2016. “Isso é uma vitória, pois conseguimos diminuir esses incêndios nos piores El Niño (aquecimento das águas do Pacífico que afeta regimes de chuva e aumenta a seca em regiões tropicais) da história”, explica Christian Berlinck. O índice é melhor até que em anos considerados chuvosos.

De vilão a mocinho

O fogo não pode ser classificado como o vilão absoluto das queimadas. Alguns povos acreditam que o fogo renova, traz vida. De fato, o ciclo de rebrota de algumas espécies do cerrado necessita desse fenômeno. O fogo é natural em períodos chuvosos, principalmente no Brasil, líder em incidências de raio no mundo.

O manejo integrado do fogo procura desmistificar a ideia de que todo fogo é ruim. “Com a pesquisa e monitoramento do fogo, trabalhamos com a ideia de que o fogo pode ser um aliado na conservação da biodiversidade”, conta Borges.

“O que precisa mudar é a época em que o fogo ocorre. Quando acontec no final da seca, as reservas energéticas necessárias para frutificação, floração e produção de semente são consumidas”, explica Berlinck. Logo, quando o fogo ocorre neste período, a vegetação é seriamente comprometida. Assim, a época ideal para queima prescrita é acompanhar o ciclo natural, ou seja, na transição do período chuvoso para o seco.

Processo contínuo

O manejo integrado do fogo é um processo que exige um planejamento contínuo e prolongado. Primeiro é realizada uma avaliação das áreas, do ciclo reprodutivo das espécies e dos métodos a serem utilizados. Durante a execução (que ocorre até o final de junho), ocorre o monitoramento e pesquisa; depois uma nova avaliação da execução subsidia o planejamento do ano seguinte e assim sucessivamente.

Além dos benefícios à conservação e do fortalecimento com a comunidade, o manejo integrado do fogo também se traduz em economia. De acordo com Berlinck, os custos podem ser reduzidos em até 90%. “O combate ao incêndio severo nos demanda custos de contratação de brigadas, deslocamento, helicópteros... com o manejo integrado, o custo financeiro diminui bastante”, conta.

As expectativas para o futuro são promissoras. “As UCs do cerrado estão avançando bastante no manejo integrado do fogo. Esperamos que as nossas experiências sejam levadas para outras UCs, especialmente as do cerrado”, avalia Menezes.

“Queremos dar continuidade, melhorar a nossa capacitação, as ferramentas de controle e avaliação e continuar com a postura de investir mais em prevenção do que em combate, considerando o aspecto ecológico do fogo”, conclui Berlinck.

Comunicação ICMBio
(61) 2028-9280
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