ESPECIALISTAS SE REÚNEM E PROPÕEM DIRETRIZES PARA CONSERVAÇÃO DO BICUDO (Sporophila maximiliani)

workshop-bicudoCom objetivo de "elaborar um guia de boas práticas para projetos de reintrodução e conservação do bicudo Sporophila maximiliani", cerca de 40 especialistas do Brasil e da Argentina têm se reunido virtualmente desde março de 2021 para elaborar o documento. O Workshop de Conservação e Reintrodução do Bicudo surgiu da união entre especialistas do CEMAVE/ICMBio (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação das Aves Silvestres), do IBAMA/DITEC – SP (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), do Laboratório de Ornitologia da UEMA - Universidade Estadual do Maranhão, campus Caxias, e do IUCN SSC CSE Brasil (Centro de Sobrevivência de Espécies Brasil), tendo sido reconhecido como uma iniciativa pioneira de organização de dados e informações orientadoras para o manejo, reintrodução e conservação de uma espécie ameaçada de extinção e que envolveu a participação de 42 instituições.

Segundo Priscilla Amaral, Coordenadora do CEMAVE, esse trabalho é um modelo a ser seguido para outras espécies de aves. "Buscamos um documento prático, aplicável ao contexto atual e útil para a conservação da espécie; algo assim só se consegue com a união da experiência de diferentes especialistas", afirmou a Coordenadora.

A ESPÉCIE

O Bicudo é uma das principais espécies alvo do tráfico de animais silvestres no Brasil, ocupando o primeiro lugar no ranking de aves canoras quanto à sua procura e valor comercial. A espécie sofreu severo declínio populacional com consequentes extinções em grande parte da sua área de ocorrência original. Estimativas recentes indicam haver menos de 100 indivíduos em vida livre no Brasil. Porém, em criadouros legalizados esse número ultrapassa 180 mil e, quando somado à estimativa de indivíduos não legalizados, é possível que a população de bicudos em cativeiro ultrapasse 400.000 exemplares.

Porém, uma fração considerável desses animais não são aptos a serem reconduzidos à natureza ou integrarem programas de conservação, uma vez que muitos deles são intencionalmente reproduzidos pelo cruzamento de diferentes espécies de bicudos, o que leva ao nascimento de indivíduos híbridos, ou seja, aves que apresentam uma mescla das características das espécies parentais. O baixo número de indivíduos na natureza, cujo perfil genético ainda é pouco conhecido, combinado ao alto grau de hibridização das aves em cativeiro, coloca a espécie em uma situação desfavorável e desafiadora do ponto de vista de conservação.

Este cenário reforça a importância da necessidade do estabelecimento de estratégias integradas de conservação, sobretudo em projetos de reintrodução que cada vez mais têm sido realizados como uma alternativa de manejo para a recuperação desta espécie, categorizadas como criticamente em perigo de extinção (CR) na lista brasileira de espécies ameaçadas e contemplada no Plano de Ação Nacional (PAN) para Conservação das Aves do Cerrado e Pantanal e no PAN Aves da Mata Atlântica.

"O bicudo tem um canto melodioso e complexo se destacando na paisagem que ele ocorre, foi justamente por esta característica, que ele foi intensamente perseguido e capturado, durante décadas, para ser criado em cativeiro, hoje em dia a espécie está extinta em quase a totalidade de sua área de ocorrência natural." (Flávio Ubaid, Professor da UEMA, Campus Caxias – MA)

Entre 2016 e 2020, quatro projetos de reintrodução do bicudo, conduzidos em três Estados (São Paulo, Minas Gerais e Goiás), foram submetidos ao SISBIO. Esses projetos foram conduzidos de forma independente e com pouco intercâmbio de experiências. Este cenário se mostrou propício para ampliar a comunicação entre as iniciativas, visando o aprimoramento mútuo para nortear ações minimamente padronizadas e integradas, tendo como base os aprendizados adquiridos pelos projetos, dados de literatura e a experiência de especialistas em diversas áreas da biologia da conservação.

Neste contexto, em 2020 o Núcleo de Biodiversidade da Divisão Técnica da Superintendência em São Paulo do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - Nubio/Ditec/Supes- SP convidou o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres - CEMAVE/ICMBio para um diálogo sobre reintrodução do bicudo na região de Lorena/SP. Para este evento convidamos o Laboratório de Ornitologia da Universidade Estadual do Maranhão - UEMA – campus Caxias, que trouxe um relato de sua experiência com o projeto de reintrodução de bicudos em MG, e o CETAS/IBAMA – GO, que desenvolve em parceria com a UFGO, um projeto de reintrodução do bicudo em GO. Neste diálogo, afinamos questões relativas ao processo de reintrodução do bicudo e surgiu a proposta de ampliar as discussões em um evento maior envolvendo os todos os projetos de reintrodução e especialistas diversos em um Workshop.

O Workshop de Conservação e Reintrodução do Bicudo contou com cinco reuniões preparatórias abordando temas inerentes aos processos de reintrodução de espécies (genética, saúde e sanidade, monitoramento pré e pós soltura e legislação). Nas sessões, os participantes contribuíram nas discussões agregando informações relacionadas aos principais pontos abordados para orientar melhor a tomada de

decisão. As discussões participativas subsidiaram a elaboração de um documento de boas práticas, que foi consolidado durante o Workshop final entre os dias 28 e 30 de julho. Este documento apresenta recomendações específicas para atender as particularidades de reintrodução do bicudo e serve de base para que iniciativas semelhantes sejam adotadas para outras espécies.

"O papel do CPSG e do CSE Brasil é juntar pessoas e instituições para impulsionar esforços de conservação. Este workshop foi um excelente exemplo disso. Agradecemos aos organizadores e especialistas que dedicaram seu tempo e energia pela conservação do bicudo." (Fabiana Lopes CSE Brasil/SSC/IUCN)