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Mamíferos - Ateles marginatus - Macaco aranha da testa branca

Avaliação do Risco de Extinção de Ateles marginatus (É. Geoffroy Saint-Hilaire, 1809) no Brasil

André Luis Ravetta1, Gerson Buss2, Anthony B. Rylands3

1Programa de Pós-Graduação em Zoologia, Museu Paraense Emílio Goeldi / Universidade Federal do Pará, Belém, Pará. <alravetta@museu-goeldi.br>
2Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros/Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. <gerson.buss@icmbio.gov.br>
3
Conservation Internacional, 2011 Crystal Drive, Arlington VA, 22202. <a.rylands@conservation.org>


Ateles marginatus Juliana Goncalves Banco de Imagens CPB pq  Ateles marginatus
Ordem: Primates
Família: Atelidae
Nomes comuns por região/língua:
Português
– Cuamba (Pará), Guatá (Mato Grosso), Macaco-aranha, Coatá-da-testa-branca
Inglês – White-cheeked Spider Monkey, White-whiskered Spider Monkey, White-fronted Spider Monkey

Sinonímia/s: 

Notas taxonômicas: 
A taxonomia dos macacos-aranha é baseada em Kellogg & Goldman (1944) e Hill (1962). As formas hybridus, chamek e marginatus são listadas como espécies distintas (Rylands et al. 2000). Froehlich et al. (1991), Medeiros (1994) e Medeiros et al. (1997) argumentaram que A. paniscus é uma forma distinta e sem subespécies. M.G.M. van Roosmalen relatou em seu sitio na internet (05 de agosto de 2003) uma espécie não descrita de macaco-aranha dentro da faixa de suposta A. marginatus. Segundo M.G.M. van Roosmalen, ocorre no limite mais a sudeste da distribuição do gênero e habita as florestas de savana seca e cerradão do norte de Mato Grosso. Seu limite ocidental é o rio Teles Pires e o limite leste é o rio Culuene, afluente das cabeceiras do rio Xingú. Esta forma, de acordo com M.G.M. van Roosmalen, difere de A. marginatus por apresentar pele castanha escura ou preta, focinho rosa em vez de ser escuro, anéis circumocular, mancha na testa triangular e bigode branco maior. De acordo com Van Roosmalen, ele pode ser visto ao longo dos afluentes das cabeceiras do rio Xingu, como os rios Culuene, Curisevo, Batovi, Ronuro e Von den Steinen. Aqui está sendo seguida a proposta taxonômica de Konstant & Rylands (2013)

Categoria e critério para a avaliação da espécie no Brasil: Em Perigo (EN) - A4cd

Justificativa: 
Ateles marginatus possui extensão de ocorrência ampla, entretanto, considerando a exigência de hábitat, característica da espécie, as fortes ameaças no arco do desmatamento, potencializadas com o asfaltamento da BR-163 e BR-230, a implantação de hidrelétricas, assentamentos rurais e aberturas de lavouras (principalmente soja), pecuária, aliadas à caça, infere-se um declínio populacional de pelo menos 50% ao longo de 45 anos, sendo, portanto categorizada como Em Perigo (EN) sob o critério A4cd.

Histórico das avaliações nacionais anteriores:
Em Perigo (EN) - A3cd

Avaliações em outras escalas:
Avaliação Global (IUCN): Em Perigo (EN) - A2cd+3cd
Avaliação estadual: Pará - Vulnerável (VU) - A4c, B2abiii.

História de vida

Maturidade sexual (anos)
Fêmea MS 4 - 5 (Defler 2003)
Macho desconhecido
Peso Adulto (g)
Fêmea 5800 (Clutton-Brock & Harvey 1977; Harvey & Clutton-Brock 1985)
Macho 6200 (Clutton-Brock & Harvey 1977; Harvey & Clutton-Brock 1985)
Comprimento Adulto (mm)
Fêmea Cabeça-corpo: 350-580, cauda: 620-770 (Mittermeier et al. 2013)
Macho Cabeça-corpo: 500-700, cauda: 750-900 (Mittermeier et al. 2013)
Tempo geracional (anos)
15 (IUCN/SSC 2007)
Sistema de acasalamento Poligâmico
Intervalo entre nascimentos desconhecido
Tempo de gestação (meses)
7,53 – 7,73 (Defler 2003)
Tamanho da prole 1 (dado não publicado)
Longevidade Acima de 30 anos em cativeiro (Dado não publicado)
Características genéticas
Cariótipo: desconhecido
Informações sobre variabilidade genética do táxon (padrões filogeográficos e relações filogenéticas): desconhecido
O táxon é endêmico ao Brasil e está presente nos estados do Pará e Mato Grosso, onde é residente e nativo (Mittermeier et al. 2008).
Ocorre entre o rio Tapajós (margem direita) e seu afluente, o rio Teles Pires (margem direita) e o rio Xingu (margem esquerda), ao sul do rio Amazonas (Kellogg & Goldman 1944; Ravetta 2005). Apesar da localidade tipo ser Cametá, na margem esquerda do rio Tocantins, historicamente não há registros de populações residentes no interflúvio Xingu-Tocantins. Apesar de relatos da ocorrência da espécie na margem esquerda do rio Xingu, não há confirmação de populações estabelecidas nessa margem. Isto sugere que indivíduos possam atravessar o rio pelas rochas durante a estação seca, conforme já foi relatado por pescadores no rio Teles Pires (dados não publicados).
É preciso uma maior amostragem e pesquisa, especialmente no limite sul de sua distribuição, pois A. marginatus é a espécie de macaco aranha que possui menos informação científica (Mittermeier et al. 2008).

O tamanho da população total remanescente não é conhecido e não se sabe se o número de indivíduos maduros deste táxon é superior a 10.000.
Ateles marginatus apresenta tamanho médio dos grupos de 25 ind. (Ravetta & Ferrari 2009), e 18 ind. na Pousada Thaimaçu (L. Pinto, comunicação pessoal)

Informações sobre abundância populacional: 0,4 grupo/10km (Martins et al. 1988); 0,14 ind/10km; 0,05 ind/10km; 0,89 ind/10km; 0,25 ind/10km; 0,7 ind/10km (Ravetta & Ferrari 2009). Na região do Tapajós, a espécie é ausente de fragmentos menores que 100 ha e extinta localmente em um raio de 50 km da cidade de Santarém, provavelmente por pressão de caça e perda de habitat (Ravetta & Ferrari 2009)

Tendência populacional: Em declínio

Ateles marginatus ocorre em floresta tropical primária de terra firme e sazonalmente inundadas. Apresenta preferência para hábitats primários (Mittermeier et al. 2008), e pouca tolerância a modificações/perturbações no ambiente, embora tenha sido registrado em áreas alteradas e fragmentadas no norte do Mato Grosso (dados não publicados).
Um grupo de 25 indivíduos monitorado na Flona do Tapajós teve área de vida estimada em 300 ha, dieta basicamente frugívora e organização social de fissão-fusão típica para as espécies do gênero (A. Ravetta, dados não publicados)
As principais ameaças identificadas para o táxon foram: assentamentos rurais, agricultura, pecuária, expansão urbana, desmatamento, aumento da matriz energética, aumento da matriz rodoviária, desconexão de hábitat, redução de hábitat e caça. Sua área de ocorrência coincide com a região conhecida como arco do desmatamento. Nessa área o desmatamento tem sido contínuo, e com tendência a crescer devido ao asfaltamento da BR-163 e BR-230, implantação de usinas hidrelétricas, assentamentos rurais e aberturas de lavouras, aliados à caça
Existentes: A espécie está listada no Apêndice II da CITES. São necessárias ações efetivas de fiscalização nas Unidades de Conservação localizadas dentro de sua área de ocorrência além da implementação das reservas criadas (Ravetta 2008). A espécie também é contemplada pelo Plano de Ação Nacional para Conservação do Xingu.
Pará: ESEC da Terra do Meio (3.373.133,89 ha), FLONA Altamira (724.965,51 ha), FLONA Itaituba I (220.639,44 ha), FLONA Itaituba II (427.366,56) (Mittermeier et al. 2008), FLONA Tapajós (549.066,87 ha) (Ferrari et al. 2003, Pimenta & Silva Júnior 2005, Mittermeier et al. 2008, Pinto 2008, Ravetta & Ferrari 2009), FLONA Trairão (257.526,32 ha), FLONA Crepori (741.244,51 ha), FLONA Jamanxim (1.301.683,04 ha), PARNA do Jamanxim (859.797,04 ha), APA do Tapajós (2.060.332,70 ha); REBIO Nascentes da Serra do Cachimbo (342.192 ha ) e RESEX Riozinho do Anfrísio (736.135,28 ha) (A. Ravetta, dados não publicados).
Mato Grosso: PE Cristalino (184.900 ha) (L. Pinto, comunicação pessoal).

Necessárias:
Considerando que Ateles marginatus é a espécie do gênero com menor conhecimento científico, são necessárias pesquisas com refinamento sobre sua distribuição, biologia, ecologia e genética. Atualmente uma dissertação de mestrado vem sendo desenvolvida sobre comportamento e dieta de um grupo na RPPN do Cristalino.
Clutton-Brock, T.H. & Harvey, P.H. 1977. Primate ecology and social organization. Journal of Zoology, London, 183 (1): 1-39.

Defler, T.R. 2003. Primates de Colombia. Conservation International, Bogotá, Colombia.

Froehlich, J.W.; Supriatana, J. & Froehlich, P.H. 1991. Morphometric analyses of Ateles: systematic and biogeographic implications. American Journal of Primatology, 25: 1-22.

Harvey, P.H. & Clutton-Brock, T.H. 1985. Life history variation in primates. Evolution, 39 (3): 559-581.

Hill, C.W.O. 1962. Primates: Comparative Anatomy and Taxonomy. V. Cebidae, Part B. Edinburgh University Press, Edinburgh, UK. 537p.

IUCN/SSC Neotropical Primates Species Assessment Workshop (Red List). 2007. Oficina realizada em Novembro de 2007 em Orlando, Florida, FL.

Kellogg, R. & Goldman, E.A. 1944. Review of the spider monkeys. Proceedings of the United States National Museum, 96: 1-45.

Konstant, W.R. & Rylands, A.B. 2013. Species accounts of Ateles. Pp. 536-542. In: Mittermeier, R.A.; Rylands, A.B. & Wilson, D.E. (eds.). Handbook of the Mammals of the World. Volume 3. Primates. Lynx Edicions, Barcelona.

Martins, E.S.; Ayres, J.M. & do Valle, M.B.R. 1988. On the status of Ateles belzebuth marginatus with notes on the other primates of the Iriri river basin. Primate Conservation, 9: 87-91.

Medeiros, M.A.A. 1994. Citogenética, Evolução Cromossômica, Radiação e Especiação dos Macacos-Aranha (Ateles, Primates). Dissertação (Mestrado). Universidade Federal do Pará, Museu Paraense Emílio Goeldi.

Medeiros, M.A.A.; Barros, R.M.S.; Pieczarka, J.C.; Nagamachi, C.Y.; Ponsa, M.; García, M.; García, F. & Egozcue, J. 1997. Radiation and speciation of spider monkeys, genus Ateles, from the cytogenetic viewpoint. American Journal of Primatology, 42: 167-178.

Mittermeier, R.A.; Boubli, J.P. & Di Fiore, A. 2008. Ateles marginatus. In: IUCN Red List of Threatened Species, Version 2011.2. Disponível em www.iucnredlist.org. Acessado em 30/11/2011.

Mittermeier, R.A.; Rylands, A.B. & Wilson, D.E. (eds.). 2013. Handbook of the Mammals of the World. Vol. 3. Primates. Lynx Edicions, Barcelona. 951p.

Pimenta, F.E. & da Silva Jr., J.S. 2005. An update on the distribution of primates of the Tapajós-Xingu interfluvium, Central Amazonia. Neotropical Primates, 13 (2): 23-28.

Pinto, L.P. 2008. Ecologia alimentar de um grupo de cuxiús-de-nariz-vermelho Chiropotes albinasus (Primates: Pitheciidae) na Floresta Nacional do Tapajós, Pará. Tese (Doutorado). Universidade Estadual de Campinas. 147p.

Ravetta, A.L. 2005. Geographic distribution, ecology and conservation of Ateles marginatus: An endangered primate endemic to the Brazilian Amazon. Conservation International, Arlington, VA.

Ravetta, A.L. 2008. Ateles marginatus Geoffroy, 1809. Pp. 728-730. In: Machado, A.B.M.; Drummond, G.M. & Paglia, A.P. (eds.). Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção - Vol. II. Ministério do Meio Ambiente e Fundação Biodiversitas. 907p.

Ravetta, A.L. & Ferrari, S.F. 2009. Geographic distribution and population characteristics of the endangered white-fronted spider monkey (Ateles marginatus) on the lower Tapajós River in central Brazilian Amazonia. Primates, 50 (3): 261-268.

Rylands, A.B.; Schneider, H.; Langguth, A.; Mittermeier, R.A.; Groves, C.P. & Rodríguez-Luna, E. 2000. An assessment of the diversity of New World primates. Neotropical Primates, 8 (2): 61-93.

Van Roosmalen, M.G.M. 2003. New species from Amazonia. Disponível em http://amazonnewspecies.com. Acessado em 01 de julho de 2012.

Van Roosmalen, M.G.M.; Nash, S.D.; & Gozzaglio, P. Sem data. Distributions and phylogeography of Neotropical primates: A Pictorial Guide to All Known New-World monkeys. E-book: Published privately, 69p.
Citação:
Ravetta, A.L.; Gerson Buss, G.; Rylands, A.B. 2015. Avaliação do Risco de Extinção de Ateles marginatus (É. Geoffroy Saint-Hilaire, 1809) no Brasil. Processo de avaliação do risco de extinção da fauna brasileira. ICMBio. http://www.icmbio.gov.br/portal/biodiversidade/fauna-brasileira/lista-de-especies/7187-mamiferos-ateles-marginatus-macaco-aranha-da-testa-branca.html

Oficina de Avaliação do Estado de Conservação de Primatas Brasileiros.
Data de realização: 30 de julho a 03 de agosto de 2012.
Local: Iperó, SP.

Avaliadores:
Alcides Pissinatti, Amely B. Martins, André C. Alonso, André de A. Cunha, André Hirsch, André L. Ravetta, Anthony B. Rylands, Armando M. Calouro, Carlos E. Guidorizzi, Christoph Knogge, Fabiano R. de Melo, Fábio Röhe, Fernanda P. Paim, Fernando de C. Passos, Gabriela Ludwig, Gustavo R. Canale, Ítalo Mourthé, Jean P. Boubli, Jessica W. Lynch Alfaro, João M. D. Miranda, José Rímoli, Júlio C. Bicca-Marques, Leandro Jerusalinsky, Leandro S. Moreira, Leonardo G. Neves, Leonardo de C. Oliveira, Líliam P. Pinto, Liza M. Veiga, Márcio P. Carvalho, Maria Adélia B. de Oliveira, Marcos de S. Fialho, Mariluce R. Messias, Mônica M. Valença-Montenegro, Rosana J. Subirá, Renata B. Azevedo, Rodrigo C. Printes, Waldney P. Martins e Wilson R. Spironello

Colaboradores:
Amely B. Martins (Ponto Focal), André C. Alonso, André C. Alonso (Apoio), Camila C. Muniz (Apoio), Carlos E. Guidorizzi (Facilitador), Emanuella F. Moura (Apoio), Fabiano R. de Melo (Coordenador de táxon), Gerson Buss (Apoio), Leandro Moreira, Liliam Pinto, Liza M. Veiga (Coordenador de táxon), Marcos de S. Fialho (Coordenador de táxon), Rosana J. Subirá (Facilitadora), Taissa Régis (Apoio) e Werner L. F. Gonçalves (Apoio).

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