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Mamíferos - Mico rondoni - Mico-de-Rondônia

Avaliação do Risco de Extinção de Mico rondoni Ferrari, Sena, schneider & silva jr., 2010, no Brasil

Mariluce Rezende Messias1 & Mônica Mafra Valença-Montenegro2



1Universidade Federal de Rondônia, Lab. de Mastozoologia & Vertebrados Terrestres. <messias.malu@gmail.com>
2Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros/Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. <monica.montenegro@icmbio.gov.br>



 


Mico rondoni Daniel Ferraz CPB  Mico rondoni  

Ordem: Primates
Família: Callitrichidae
Nomes comuns por região/língua:
Português
– Mico-de-Rondônia, Sagui-branco, Macaquinho-branco.
Inglês – Rondon’s Marmoset, Rondônia Marmoset.

Sinonímia/s: Mico cf. emiliae (Vivo, 1985).


Notas taxonômicas: 
Este táxon foi inicialmente descrito como uma população isolada de Mico emiliae, sendo uma forma um pouco mais escura, referida como Mico cf. emiliae (Vivo, 1985). Nagamachi et al. (1996, 1997, 1999) analisaram o cariótipo do táxon, e Sena et al. (2002) realizaram uma análise filogenética através de sequência gênica mitocondrial do citocromo oxidase II. Ambos os estudos confirmaram tratar-se de uma nova espécie. Esta forma foi então descrita como Mico rondoni (Ferrari et al. 2010). Aqui está sendo seguida a taxonomia proposta por Rylands (2012).

Categoria e critério para a avaliação da espécie no Brasil: Vulnerável (VU) - A2ce + A4ce

Justificativa: 
Mico rondoni é uma espécie rara e endêmica que ocorre no estado de Rondônia. As principais ameaças estão relacionadas à perda e fragmentação de habitat, agricultura, pecuária, expansão urbana, assentamentos rurais, aumento das matrizes rodoviária e energética, além da aparente dominância do Saguinus weddeli weddeli, que está invadindo sua área de distribuição e é potencial competidor por recursos, principalmente em áreas impactadas e fragmentos florestais. Sua densidade e abundância aparentemente são extremamente baixas, sendo obtida uma taxa de avistamentos de apenas 0,69 ind/10km em relevante esforço amostral dispendido na Floresta Nacional do Jamari (1.403,6 km de transecção linear) (M. Messias, dados não publicados). Infere-se que esses fatores levaram a um declínio populacional de pelo menos 30% em três gerações e que este declínio deve continuar existindo. Sendo assim, M. rondoni foi categorizado como Vulnerável (VU) sob os critérios A2ce + A4ce.

Histórico das avaliações nacionais anteriores: Táxon não consta na última avaliação nacional, pois ainda não havia sido descrito.

Avaliações em outras escalas:
Avaliação Global (IUCN): Vulnerável (VU) - A2c

História de vida

Maturidade sexual (anos)
Fêmea Sem informação para a espécie.
Macho Sem informação para a espécie.
Peso Adulto (g)
Fêmea 330,2 (n=17) para ambos os sexos (Ferrari et al 2010)
Macho 330,2 (n=17) para ambos os sexos (Ferrari et al 2010)
Comprimento Adulto (mm)
Fêmea 220,6 (n=15) para ambos os sexos (Ferrari et al 2010)
Macho 220,6 (n=15) para ambos os sexos (Ferrari et al 2010)
Tempo geracional (anos)
6 (IUCN/SSC 2007).
Sistema de acasalamento Poligâmico, poliândrico (Ferrari 2008).
Intervalo entre nascimentos Sem informação para a espécie
Tempo de gestação (meses)
5 meses e meio (para o gênero) (Ferrari 2008).
Tamanho da prole Gêmeos bivitelinos é a prole modal, eventos de nascimento de um filhote são raros (para o gênero) (Ferrari 2008).
Longevidade Desconhecido
Características genéticas
Cariótipo: 2n=44 (Barros et al. 1990)
Informações sobre variabilidade genética do táxon (padrões filogeográficos e relações filogenéticas): Meireles et al.(1992) identificaram polimorfismos distintos entre as duas margens do rio Jamari, indicando que este, recentemente, atuou como barreira geográfica para as populações locais de M. rondoni. De acordo com Sena et al. (2002 apud Ferrari et al. 2008), Mico emiliae forma um clado monofilético com M. argentatus, e M. melanurus forma um clado com M. saterei, M. humeralifer e M. mauesi. Mico rondoni estaria, ainda que fracamente, mais próximo deste segundo clado.

Mico rondoni é endêmico ao Brasil, e está presente apenas no estado de Rondônia, onde é residente e nativo (Ferrari et al. 2010).
Sua distribuição é delimitada a oeste pelo rio Mamoré, ao norte pelo rio Madeira, a leste pelo rio Ji-Paraná, e ao sul pela Serra dos Pacaás Novos (Ferrari et al. 2010), onde pode ser parapátrica com M. melanurus, que é tipicamente encontrado em vegetação de savana, ao invés de ecossistemas de florestas tropicais, que predominam no sul de Rondônia. M. rondoni é simpátrico com Saguinus weddelli weddelli ao longo de toda a sua distribuição, porém parece estar ausente em algumas áreas, incluindo várias com presença de S. w. weddelli (Ferrari et al. 2010). Ferrari et al. (1995) não encontraram qualquer evidência da ocorrência de saguis durante os levantamentos no Parque Estadual Guajará-Mirim, no centro-oeste de Rondônia. Embora G.R. Monção em 2006 tenha registrado esta espécie em Pimenta Bueno, no alto rio Jiparaná (de Oliveira et al. 2008), Ferrari et al. (1996) e Bacelar (2010) não encontraram nenhuma espécie de sagui nesta mesma área.
É preciso uma maior amostragem no PARNA Serra dos Pacaás Novos e TI Pacaás Novos (sobrepostos), devido à grande extensão dos mesmos, a nenhum levantamento sistemático realizado nas duas áreas, e pelo fato de M. rondoni não ser um táxon críptico.
A extensão de ocorrência da espécie é de 70.576,54 km² e infere-se, a partir do somatório das áreas de UC, que sua área de ocupação atual seja de 17.549 km2. Porém, há projeção de redução futura de sua área de distribuição em função da grande pressão de desmatamento, fragmentação e urbanização de toda a região norte do estado de Rondônia.

O tamanho da população total remanescente não é conhecido e não se sabe se o número de indivíduos maduros deste táxon é superior a 10.000.
Mico rondoni deve apresentar tamanho médio de grupo entre 4-15 indivíduos, como as demais espécies da família Callitrichidae (de Oliveira et al. 2008). Na Floresta Nacional do Jamari, o tamanho médio de grupo foi de 3,34 indivíduos (n=29), mas este valor provavelmente está subestimado, visto que 14 destes registros ocorreram em áreas impactadas por exploração florestal ou mineral, sendo de 3,8 indivíduos o tamanho médio de grupo observado em área preservada sem impactos antrópicos (M. Messias, dados não publicados).

Informações sobre abundância populacional: 0,88 grupos/10 km - Mata ciliar margem direita do alto rio Madeira (AID e AII das UHEs Santo Antônio e Jirau); 0,05 grupos/10 km - cachoeira de Jirau e 0,04 - Abunã (Messias 2004); 0,8 ind/10 km - Flona do Jamari (M. Messias et al. 2005) e 0,69 ind/10 km ou 0,2 grupos/10 km em 1.403,6 km de transecção (n=29), variando de apenas 0,296 ind/10 km e 0,088 grupos/10 km em área em estágio intermediário de recomposição florestal previamente impactada por mineração (n=3), até 1,097 ind./10 km e 0,289 grupos/10 km em área intacta, considerada como controle (n=15) (M. Messias, dados não publicados); 0,1 ind/10 km – Nova Mamoré; 0,4 ind/10km – Machadinho do Oeste e 0,2 ind/10 km – RESEX Ouro Preto II (Ferrari et al. 2010).

Tendência populacional: Em declínio

Mico rondoni habita Floresta ombrófila densa de baixada (de Oliveira et al. 2008) e floresta ombrófila aberta (Messias et. al. 2005). Não é restrito a habitats primários, já foi observado em área altamente antropizada perto de Porto Velho: BR-364, no Campus da UNIR. Sendo assim, apresenta tolerância a modificações/perturbações do ambiente.
Em 72,4% dos avistamentos registrados na Florestal Nacional do Jamari durante 1.403,6 km de transecção linear (n=29 avistamentos), Mico rondoni estava forrageando em bando misto, geralmente com Saguinus weddelli weddelli (65,5%, n=19). Também foram registradas associações com Pithecia irrorata em área preservada (registro único) e com Sapajus apella em área sob impacto de atividades de exploração seletiva de madeira (também registro único) (M. Messias, dados não publicados).
A área de vida do táxon, seguindo o que se conhece para os calitriquídeos, é estimada em 10-40 ha (de Oliveira et al. 2008).

As principais ameaças identificadas para o táxon foram: assentamentos rurais, agricultura, pecuária, expansão urbana, desmatamento, aumento da matriz energética, aumento da matriz rodoviária, desconexão e redução de habitat. Outra ameaça é a potencial competição com Saguinus weddeli weddeli, que está dominando sua área de distribuição e aparentemente tem maior capacidade para se adaptar em áreas impactadas e matas secundárias que Mico rondoni (M. Messias, dados não publicados).
Sem informação. 
Rondônia: ESEC Estadual Samuel (71.061 ha) (Martins et al. 1987; Rylands & Bernardes 1989; Bonavigo & Messias 2004), PARNA Pacaás Novos (708.664,30 ha), FLONA Jamari (222.114,24 ha) (Messias et al. 2005), TI Uru-Eu-Wau-Wau (1.867.117,80 ha) (Oliveira et al. 2008), RESEX Rio Ouro Preto (204.631,55 ha) (Messias 1999; Ferrari et al. 2010), PE Guajará-Mirim (200.071,77 ha) (Ferrari et al. 2010)


Sem informação.


Bacelar, B.A.S.M. 2010. Caracterização da comunidade de mamíferos de médio e grande porte em área ecotonal da amazônia sul-ocidental. Monografia (Bacharelado em Ciências Biológicas). Universidade Federal de Rondônia.

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Citação:
Messias, R. M.; Valença-Montenegro, M. M. 2015. Avaliação do Risco de Extinção de Mico rondoni Ferrari, Sena, Schneider & silva Jr., 2010, no Brasil. Processo de avaliação do risco de extinção da fauna brasileira. ICMBio. http://www.icmbio.gov.br/portal/biodiversidade/fauna-brasileira/estado-de-conservacao/7222-mamiferos-mico-rondoni-mico-de-rondonia.html

Oficina de Avaliação do Estado de Conservação de Primatas Brasileiros.
Data de realização: 30 de julho a 03 de agosto de 2012.
Local: Iperó, SP.

Avaliadores:
Alcides Pissinatti, Amely B. Martins, André C. Alonso, André de A. Cunha, André Hirsch, André L. Ravetta, Anthony B. Rylands, Armando M. Calouro, Carlos E. Guidorizzi, Christoph Knogge, Fabiano R. de Melo, Fábio Röhe, Fernanda P. Paim, Fernando de C. Passos, Gabriela Ludwig, Gustavo R. Canale, Ítalo Mourthé, Jessica W. Lynch Alfaro, João M. D. Miranda, José Rímoli, Júlio C. Bicca-Marques, Leandro Jerusalinsky, Leandro S. Moreira, Leonardo G. Neves, Leonardo de C. Oliveira, Líliam P. Pinto, Liza M. Veiga, Maria Adélia B. de Oliveira, Marcos de S. Fialho, Mariluce R. Messias, Mônica M. Valença-Montenegro, Rosana J. Subirá, Renata B. Azevedo, Rodrigo C. Printes, Waldney P. Martins, Wilson R. Spironello

Colaboradores:
Amely B. Martins (Ponto Focal), André C. Alonso (Apoio), Camila C. Muniz (Apoio), Carlos E. Guidorizzi (Facilitador), Emanuella F. Moura (Apoio), Fabiano R. de Melo (Coordenador de táxon), Gerson Buss (Apoio), Liza M. Veiga (Coordenador de táxon), Marcos de S. Fialho (Coordenador de táxon), Rosana J. Subirá (Facilitadora), Taissa Régis (Apoio), Werner L. F. Gonçalves (Apoio).


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