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Avanços para a conservação das ararinhas-azuis

Publicado: Sexta, 02 de Agosto de 2019, 15h03
Plano de Ação Nacional objetiva soltura experimental da ave até julho de 2026

Extinta na natureza há quase vinte anos, ararinha-azul pode voltar à Caatinga em 2026 (Foto: ACTP)
Extinta na natureza há quase vinte anos, ararinha-azul pode voltar à Caatinga em 2026 (Foto: ACTP)

Foi publicada na última terça-feira (30) o Plano de Ação Nacional (PAN) Ararinha Azul (Cyanopsitta spixii). A espécie é considerada extinta na natureza e há 163 exemplares vivendo somente em cativeiro. Destes, somente 13 estão no Brasil.

O PAN tem vigência até julho de 2024 e entre suas metas está a soltura experimental de pelo menos uma ararinha na natureza. Para isso, o ICMBio e o Ministério do Meio Ambiente vêm concentrando esforços na busca de parceiros, criação de áreas seguras e capacitação técnica para que a ararinha-azul retorne à Caatinga, seu ambiente natural, depois de vinte anos. Exemplos de ações como essas foram a criação de duas UCs de conservação voltadas para as ararinhas-azuis, em 2018, e um acordo firmado entre o Governo brasileiro e a OnG alemã Association for the Conservation of Threatend Parrots (ACTP) para a repatriação de cinquenta ararinhas-azuis, assinado neste ano.

De acordo com a coordenadora do Grupo de Assessoramento Técnico do PAN, Camile Lugarini, o primeiro objetivo é realizar pelo menos uma soltura de ararinha azul até julho de 2024. Para isso, as ações previstas são a repatriação de ararinhas para a formação do plantel reprodutivo e de animais aptos à soltura; estabelecimento de um centro de reintrodução na Fazenda Concórdia (onde já existem algumas ações de reprodução da espécie) e em outros locais perto da área de ocorrência histórica; um centro de reprodução da ararinha azul na Caatinga. Após isso, estão previstas também solturas experimentais de maracanãs e grupos mistos de ararinhas-azuis e maracanãs e por fim, a soltura experimental somente da ararinha-azul.

A ararinha-azul é um animal que depende muito da manutenção do seu ambiente para a sobrevivência. Estudos indicam que as ararinhas-azuis possuem preferência por matas de galeria por caraibeiras (Tabebuia aurea). Essas árvores são usadas para repouso, estabelecimento de ninhos e obtenção de alimentos. Outros estudos apontam um grande cacto chamado de facheiro (Pilocereus piauhiensis) como local de pernoite e proteção.

Dentro do contexto do PAN, a conservação da biodiversidade do bioma Caatinga tem papel fundamental para a reintrodução e manutenção de população viável. Para isso, segundo Lugarini, os desafios a serem enfrentados pelo PAN procuram estimular e promover práticas agrícolas compatíveis com a reintrodução e a manutenção da espécie na natureza; o ordenamento na ocupação das bacias hidrográficas da região, com ênfase onde estão localizados os riachos da Melancia e da Barra Grande e a recuperação da vegetação da área.

As ararinhas serão reintroduzidas nas duas áreas protegidas criadas especialmente para protegê-las: o Refúgio da Vida Silvestre da Ararinha Azul e a Área de Proteção Ambiental da Ararinha Azul, ambas em Curaçá (BA). As duas já estão em fase implementação. Pesquisadores locais, especialmente os da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), e voluntários pesquisadores-cidadãos de Curaçá que participam de todas as etapas do Projeto Ararinha na Natureza, como pesquisa, divulgação, capacitação e engajamento. Dentre essas ações, o turismo de base comunitária com enfoque na observação de aves, tem sido estimulado como alternativa de geração de renda sustentável para a população local. Com o envolvimento da comunidade, é esperado coibir práticas ilegais como a caça e a biopirataria.

Os PANs são uma das principais estratégias do governo brasileiro para a conservação e recuperação de espécies ameaçadas de extinção e prioriza objetivos e ações necessárias. O processo define a gestão estratégica, isto é, como os recursos podem ser utilizados de maneira mais eficientes. O Brasil é signatário da Convenção para a Diversidade Biológica e também ratificou, durante a 10ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica, em Aichi (Japão), metas que visam estabelecer ações concretas para deter a perda da biodiversidade planetária.

Primeiro PAN foi focado na reprodução de ararinhas azuis em cativeiro (Foto: Leonardo Milano)O primeiro ciclo do PAN

O ICMBio estabeleceu o primeiro ciclo do PAN Ararinha Azul em fevereiro de 2012. O objetivo geral foi o aumento da população manejada em cativeiro e a recuperação e conservação do habitat de ocorrência história da ave. A ideia era, que até 2021, a população em cativeiro atingisse o mínimo de 150 aves, além de recuperar habitats críticos, fortalecer parcerias e iniciar o projeto de conservação até 2017.

O carro-chefe foi a instituição do primeiro Programa de Cativeiro do ICMBio. Foram aprimorados estudos para a manutenção da espécie em cativeiro, especialmente medidas de biossegurança, já que as aves eram atingidas com o bornavírus. Em 2017, o objetivo de atingir pelo menos 150 aves em cativeiro foi atingido: em agosto, o número total de indivíduos era de 153, número suficiente para estabilizar o plantel e iniciar a reprodução para soltura.

Ainda durante o primeiro ciclo, foram tomadas as primeiras tratativas para formalizar a vinda de ararinhas-azuis estrangeiras para o Brasil com o objetivo de reprodução e posterior soltura na natureza. O aumento da população em cativeiro possibilita maior variabilidade genética e melhora as chances de sucesso na reintrodução da espécie.

Para a realização do PAN atual, há o Grupo de Assessoramento Técnico (GAT), presidido pela Coordenadora do PAN, Camile Lugarini e constituído por diferentes membros participantes do PAN. Além do ICMBio, representado por Lugarini, o GAT ainda conta com um representante da ACTP e uma da Fazenda Cachoeira, mantenedor brasileiro de ararinhas-azuis em reprodução; a ONG Eco-Conservation, responsável por propriedades privadas que são sítios para a reintrodução da ave; a US Fish & Wildlife, que já teve experiência com reintrodução com papagaios-de-porto-rico; a OnG Internacional Parrots International, que historicamente acompanha as estratégias de conservação da ararinha-azul; e o poder executivo municipal, que está envolvido no Projeto Ararinha da Natureza.

Sobre a espécie

A ararinha-azul é o único representante do gênero Cyanopsitta. Endêmica do Brasil, ela mede em torno de 55cm e tem entre 280 a 300g. Na natureza, acredita-se que a dieta baseava-se em sementes de pinhão, faveleira, baraúna e marizeiro.

As aves são monogâmicas em longo prazo, ou seja, passam mais de uma temporada reprodutiva com o mesmo par. O período de reprodução estava diretamente relacionado à época de chuvas, ou seja, de outubro a março. Geralmente, os ninhos eram ocos abandonados de pica-paus ou ocos naturais formados pela quebra de galhos, em árvores como caraibeiras, mulungus e muquens.

Os principais predadores consistiam em aves de rapina e no ser humano, que retirava as aves para a venda ilegal. Já ovos e filhotes são ameaçados por gambás, aves de rapina, serpentes, saguis, morcegos, abelhas e também ação humana.

Na natureza, a expectativa de vida é estimada entre 20 e 30 anos, já em cativeiro, a ave mais velha viveu 40 anos, mas nunca se reproduziu.

De pelagem azul clara, cabeça esbranquiçada e cauda comprida; a ave encantou o naturalista alemão Johann Baptist von Spix, que a levou para a Europa, onde foi descrita por Johann Wagler, em 1832. A ararinha-azul aparentemente sempre foi muita rara e de distribuição bastante restrita. Em 1986, foi constatado que a espécie estava à beira da extinção: restavam apenas três exemplares. Dois deles foram levados por traficantes ainda naquele ano. Até 1990, acreditava-se que a espécie estava extinta até o último indivíduo ser avistado na natureza. Este foi o pontapé inicial para o Projeto Ararinha-azul para tentar preservar este último exemplar.

Em outubro de 2000 foi realizado o último avistamento oficial da ave na natureza. A partir desta data, a espécie foi considerada criticamente em perigo e possivelmente extinta na natureza. Não houve outro avistamento nos anos anteriores, o que descontinuou os esforços de conservação, que só foram retomados com a publicação do PAN, em 2012.

Em 2016, moradores de Curaçá fizeram um vídeo no qual suspeitou-se ter visto uma ararinha-azul na natureza. O vídeo reacendeu as esperanças de ter ao menos um exemplar ainda em liberdade e o Ministério do Meio Ambiente chegou até a organizar uma expedição de investigação. No entanto, a existência da ave não foi confirmada, especialmente pela vocalização que se assemelha mais à arara-azul-de-lear que da ararinha-azul.



Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) relacionados:
ODS Vida Terrestre



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